A data, comemorada no último domingo (17), reforça o enfrentamento à violência e à discriminação contra pessoas LGBTQIA+
Há 36 anos, no dia 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde retirava homossexualidade do Código Internacional de Doenças (CID). Posteriormente, a data foi escolhida para ser celebrado o Dia Internacional Contra a Homofobia, simbolizando um momento de reflexão sobre direitos humanos, respeito às diferenças e enfrentamento à discriminação contra pessoas LGBTQIA+.
Júnior Linhares, docente do curso de psicologia e pesquisador nas áreas de gênero, sexualidade, diversidade e inclusão, fala sobre a data sob duas perspectivas importantes: a primeira é de que é um dia de luta contra o preconceito que persiste de diferentes formas e, depois, a de que é um marco histórico pela despatologização da orientação sexual. Mas mesmo que a retirada da categoria de doença tenha sido um passo fundamental, ele reforça que ainda há muito para ser feito.
“E é muito difícil às vezes a gente pensar sobre isso, porque mesmo retirando da categoria de doença, a gente ainda vê muitas pessoas trazendo a ideia das terapias de reversão sexual, que é o que se chamava de cura gay. Então é justamente um dos grandes desafios, que mesmo tendo sido legitimada essa retirada da classificação internacional das doenças, nós ainda temos essa marca do preconceito e da discriminação”, explica o professor.
Trinta anos depois, a falta de respeito, acolhimento e paridade no tratamento social ainda são responsáveis por adoecer pessoas que não têm sua orientação sexual reconhecida como legítima. Essa realidade demonstra a ausência do respeito sobre a diversidade, elemento essencial para qualquer sociedade justa e aberta ao diálogo.
Dentro de instituições de ensino superior é possível tornar a conscientização peça-chave para a formação de cidadãos conscientes e acolhedores, impactando para além do campus. A diferença quando valorizada se torna motor de prosperidade, ensinando futuros profissionais que, transformados por dentro, poderão transformar os lugares que irão atuar.
“No espaço acadêmico, a gente precisa pensar, desde a dimensão estrutural, a partir de ambientes que sejam mais inclusivos, que respeitem todas essas diferenças, mas também pensar nas práticas. Uma das maiores barreiras que a gente tem são as barreiras atitudinais e comportamentais”, explica Júnior, “As formas de preconceito e discriminação podem vir de diversas formas, desde uma palavra, de uma piada, de uma brincadeira, que coloca esse sujeito numa zona de exclusão, e nega a ele o direito de existir”.
O Diversifica Unileão
Pensando em estabelecer diálogos e construir um espaço de pertencimento para todos, o Diversifica Unileão surgiu para conduzir os professores a novas dimensões da diversidade. Idealizado a partir de inquietações do próprio corpo docente, o programa de capacitação teve início em 2024 e, em 2026, chega à sua terceira edição, consolidando-se como uma formação continuada voltada à inclusão e à acessibilidade no ensino superior.
“Existem posturas que precisam ser repensadas. É preciso desconstruir-se a si mesmo para se abrir a novas possibilidades. Em nenhum momento o curso veio com a proposta de impor uma forma de pensar, mas de ampliar a perspectiva do professor”, destaca Júnior, que é doutor em Psicologia Clínica.
A cada edição, o Diversifica resulta na produção de um livro que reúne experiências de professores e práticas pedagógicas comprometidas com a construção de ambientes acadêmicos mais inclusivos.
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Já na segunda edição, o programa passou a trabalhar com sequências didáticas, refletindo também sobre como o professor pode ampliar sua perspectiva a partir do Desenho Universal para a Aprendizagem. Na edição atual do Diversifica, em 2026.1, essa proposta foi mantida, com o mesmo ritmo de trabalho formativo. Segundo Júnior Linhares, em média, quase 300 professores já participaram dessa formação.
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A Unileão fortalece a inclusão, acolhimento e combate à discriminação contra a comunidade LGBTQIA+ no ambiente acadêmico também com iniciativas como a Liga de Saúde e Diversidade (LASID), com coordenação do professor Marcos Telles, e projetos sobre gênero e diversidade no Grupo de Pesquisa Currículo e Formação. Além disso, a pauta está presente na curricularização, através de disciplinas temáticas no curso de Psicologia e no mestrado de Ensino em Saúde.
A importância da escuta de diferenças
Em seu último livro publicado, “A Arte da Escuta: Entre Palavras, Silêncios e o Fazer Clínico”, Júnior Linhares elabora que escutar a diferença é um desafio. É discutido a necessidade de refletir sobre o que é incomum e não faz parte das nossas experiências. “Em todos os espaços, esse discurso sobre a diversidade precisa ser trabalhado. As pessoas são muitas vezes consolidadas a pensar de uma única forma. E quando você desloca essa pessoa a repensar suas posições, a gente consegue construir uma sociedade que seja, de fato, inclusiva, equitativa e que cada um possa ser ouvido e também poder falar”, explica o autor.
O combate à homofobia acontece em ambientes diversos e por pessoas dispostas a se deslocar do próprio lugar, ouvindo quem sofre com a discriminação e assumindo a responsabilidade de transformar o mundo ao seu redor. Mais do que uma data no calendário, o 17 de maio funciona como um lembrete de que garantir direitos e respeito à população LGBTQIA+ depende da ação conjunta de todos para uma sociedade igualitária, empática, e que escute cada um.