Pesquisas publicadas na revista científica European Journal of Sport Science demonstram que a fadiga mental compromete o desempenho físico e que seus efeitos se intensificam conforme aumenta o desgaste psicológico acumulado ao longo do dia.
Depois de um dia intenso de trabalho, estudo ou até mesmo de uso prolongado de telas e redes sociais, muitas pessoas relatam a sensação de que o treino “não rende”. O que antes era visto apenas como uma sensação cotidiana agora encontra respaldo na ciência.
Estudos liderados pelo professor Solon Junior, do curso de Educação Física da Unileão, investigaram os mecanismos pelos quais a fadiga mental compromete o desempenho físico, tanto na musculação quanto em exercícios de resistência aeróbica, como corrida, bicicleta e natação. Os resultados foram publicados na European Journal of Sport Science, uma das principais revistas científicas internacionais da área.
Desenvolvidos durante o doutorado do pesquisador na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), os estudos envolveram uma rede de colaboração com pesquisadores de instituições do Brasil, Alemanha, Itália, Espanha e outros países.
Quanto maior o desgaste mental, maior o impacto
As pesquisas buscaram entender como diferentes níveis de cansaço mental influenciam o desempenho na musculação. Em um dos estudos, os participantes foram submetidos ao Teste de Stroop, uma atividade computadorizada que exige atenção e concentração contínuas e é amplamente utilizada em pesquisas científicas para induzir fadiga mental.
Em seguida, realizaram séries de agachamento até não conseguir continuar a série. Os resultados mostraram que quanto maior o cansaço mental antes do treino, menor foi o número de repetições realizadas e maior a percepção de esforço durante o exercício.

Segundo Solon Junior, a motivação para a pesquisa surgiu da observação de uma realidade cada vez mais frequente.
“Atletas, estudantes e trabalhadores frequentemente chegam aos treinamentos mentalmente cansados. Isso despertou o interesse em compreender até que ponto esse estado influencia o desempenho físico e quais estratégias poderiam ajudar a minimizar seus efeitos”, explica.
Os resultados observados nos experimentos também foram confirmados em uma revisão ampla da literatura científica publicada posteriormente pelo pesquisador. Nesse estudo, foram analisados e comparados os dados de diversas pesquisas realizadas sobre o tema.
Segundo Solon, as evidências indicam que exercícios mais complexos, que exigem a ação coordenada de vários grupos musculares — como o agachamento e o supino — tendem a sofrer maior influência do cansaço mental do que movimentos mais simples e isolados.
“Embora o nível de evidência ainda seja considerado baixo, os resultados sugerem que exercícios multiarticulares tendem a ser mais afetados do que exercícios monoarticulares”, aponta.
Para a população em geral, a principal conclusão é que o rendimento nos exercícios não depende apenas da condição muscular ou cardiovascular. O estado mental também exerce influência direta sobre a capacidade de realizar esforço físico.
A ciência confirma o que muitos praticantes já percebiam
O estudante de Administração e praticante de corrida e musculação Fábio Henrique Moreira Braga afirma que a influência do estado mental no desempenho esportivo é facilmente percebida na rotina.
“Em situações que desgastam a mente, como estresses e discussões, a gente não consegue render como nos dias em que está bem. Até a força acaba diminuindo e isso impacta diretamente na execução do meu treino, tanto na academia quanto na corrida”, relata.
Segundo ele, a relação entre mente e desempenho se torna ainda mais evidente em provas e treinos de longa duração.
“Na corrida, a gente pensa que o que mais pesa é o físico ou a respiração. Mas chega um momento em que o que determina se você vai continuar ou parar é a mente. O corpo pede descanso, mas é a mente que ajuda a concluir o treino”, afirma.
Em busca de estratégias para reduzir os efeitos do cansaço mental
Além de investigar como o desgaste psicológico afeta o desempenho físico, Solon também tem estudado possíveis formas de reduzir esses impactos.
Uma das estratégias analisadas foi a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS), uma técnica não invasiva que utiliza correntes elétricas de baixa intensidade aplicadas em áreas específicas do cérebro. No estudo, os participantes submetidos à estimulação ativa conseguiram realizar entre 10% e 12% mais repetições do que os grupos de comparação.
Outra abordagem investigada foi a suplementação com L-tirosina, um aminoácido estudado por seu possível efeito sobre o desempenho em situações de desgaste mental. Os resultados mostraram que ciclistas amadores que receberam o suplemento apresentaram desempenho cerca de 16% superior ao do grupo que recebeu um produto sem ingrediente ativo, quando realizaram exercícios em condições de fadiga mental.
Segundo o pesquisador, os resultados são promissores, mas novas investigações ainda são necessárias para compreender melhor como essas estratégias podem ser aplicadas na prática.
Ciência produzida no interior com alcance internacional
Os artigos contaram com a participação de pesquisadores vinculados a instituições como a Università di Bologna (Itália), University of Potsdam (Alemanha), Universidade de León (Espanha) e outras universidades parceiras.
De acordo com Solon Junior, a cooperação internacional é fundamental para ampliar a qualidade das pesquisas e fortalecer o intercâmbio científico entre diferentes grupos de investigação.
“Os artigos demonstram que pesquisadores do interior nordestino podem produzir conhecimento relevante e integrar redes internacionais de pesquisa de alto nível”, conclui.
Para acessar os artigos na íntegra, clique aqui, aqui e aqui.

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